Casal Cultural Temporada de Verão - Diário de Bordo 4

By Janeiro 24, 2019

Assim como as coisas tem que acontecer, elas têm que acontecer. Parece um pouco confuso, mas pode ter certeza que à medida que o diário de bordo dessa semana for se desenrolando vocês vão entender o sentidodessa frase

Podemos dizer que a última semana foi extremamente conturbada, desde nosso último texto em que relatamos o nosso dia-a-dia em geral, muitas coisas mudaram. Principalmente nosso jeito de ver o mundo e as pessoas.

Bom, a semana passou corriqueira. Ficamos mais próximos dos amigos que fizemos, conhecemos mais pessoas, fomos a uma festa louca de nativos no meio de uma “floresta”, com uma casa fantástica iluminada por projeções.  Descobri que serei tia. Mas todas essas coisas foram um tanto quanto apagadas pelo borrão do que acontece no domingo.

Onde estavámos(?) (!)

Vou atualizar vocês dos fatos. Lembram-se de quando dissemos que começamos a trabalhar no mesmo local, e que parecia que tudo indicava que aquele lugar era o nosso destino, por uma serie de fatores que aconteceram mesmo antes de virmos para Arraial? Pois é. Há males que vem para o bem.

Conhecemos pessoas extraordinárias? Sim! Aprendemos muito? Demais! Tiramos uma boa graninha? Sem dúvida! Mas, trabalhar lá ia contra tudo que aprendemos até hoje em nossas vidas sobre: Dignidade, caráter, consideração com o próximo, respeito e senso de justiça.

Não direi que são pessoas ruins os responsáveis por tudo isso, não tenho esse direito. Porém, nos fez aprender muito sobre como não queremos ser na vida. E enxergar que é possível facilmente iludir dando com uma mão, e tirando muitos direitos com a outra.

Alguns %'s

Vamos aos fatos, entramos no Armazém da praça, eu e Bernardo. Ele no bar e eu como atendente, como foi dito no último diário de bordo. Comigo, ao todo eram 6 garçons, ao passar dois dias, mais dois chegaram. Ou seja, 8 pessoas servindo mesas. Porém, aqueles famosos 10% nunca chegam integrais aos bolsos de quem realmente merece.

Não entendeu? Vou explicar novamente, todo estabelecimento que o funcionário é comissionado, por assim dizer, e recebe os 10% do valor vendido, tem o direito de reter até 3% do valor, para perdas e danos. Repassando assim, os outros 7% aos seus funcionários.

Não no Armazém da praça. O valor repassado para os atendentes logo quando eu entrei eram de 6%, e com a entrada de outros 2, foi para 8%. Um breve engano nos fez acreditar que essa mudança aconteceu pelo número de funcionários, bobagem a nossa

Apps

O estabelecimento também está associado a um aplicativo de indicações de hospedagem, bares, restaurantes e passeios. Que utiliza das avaliações para obter uma maior pontuação no ranking de bares, no caso. As avaliações também contam para os atendentes, e quando a comissão era de 6%, cada citação do nome de um atendente, era repassado o valor de 8% para esse indivíduo. Se ele viesse a receber mais de 3 avaliações, uma “bonificação” também lhe era dada.

Agora vamos fazer alguns cálculos, com um maior número de garçons, durante a alta temporada, em que todos os lugares fervem de clientes e não se tem nem se quer cadeiras para se sentar. Imaginávamos que o correto seria pagar 8%, mais 2% pelas avaliações do app, mais a bonificação. Correto? Não. O que é nosso por direito, não é do nosso direito.

Não sei dizer se nossas contas foram exatas, e vocês podem me corrigir caso esteja dizendo tanta besteira assim, aprender nunca é demais. Porém, acredito que esse seria o mais justo.

Mas isso é o de menos, com a alta temporada não era possível tiramos nenhuma folga, então, desde o dia 25 de dezembro, estávamos trabalhando sem parar. Mesmo com as propostas de revezamento, era “impossível”. Saiamos às 2 da manhã e as 16h30 tínhamos que estar presentes novamente, de corpo, alma, e com um sorriso estampado no rosto

Tudo acaba em ovo

Ah, calma ai. Essa não era a pior parte. Tínhamos 30 minutos de intervalo para jantar um prato não tão típico da Bahia. Ovo. De todo tipo, cozido, frito, ensopado, moquecado ou mexido. Dos 7 dias da semana, pelos nos 6 deles tinham ovo como prato do dia. Quando não era ovo, separavam um tipo de carne, bem difícil de ser identificada, que talvez no dia seguinte já pudesse ser mais utilizada.

Acredito que muitos de vocês podem estar pensando, tem muita gente por ai que não tem nem um ovo para comer. Sim, sem duvida. A nossa indignação não era por ser ovo, mas por termos que trabalhar por mais 9 horas, sustentados pela aquela refeição. Além é claro, de justamente por ser verão, e o faturamento semanal estar nas alturas, “graças” aqueles que não tinham outra opção, se não o ovo.

"A movimentadora, revolucionária, etc, etc, e comunista"

Obviamente, o aborrecimento com tudo isso era geral, fora uma série de outras questões de se duvidar do caráter do nosso então empregador, que não me cabe dizer. Todos trabalhavam cansados, revoltados, indignados. Mas com o sorriso amarelo, muitas vezes pela necessidade, pela divida, ou por, assim como nós, pelo sonho.

Decidimos por não entregar mais cartõezinhos solicitando avaliações do dito app, e por questionar sobre a nossa alimentação, não que eu já houvesse feito isso antes, pessoalmente, sem holofotes, apenas em uma conversa sincera. Claro, sem resultados.

Bom, em momentos como este, em que todos os funcionários estavam “reunidos” a sua revolta, nos foi questionado o motivo da reunião. Eu, na minha humilde inocência, de achar que tudo deve ser conversado da maneira mais sincera e coerente. Onde todos ficaram em silêncio ao meu redor, levantei a mão e disse: “Bom, as pautas são: Ovo, app e ovo”.

Felicidade e orgulho

Não sei se esse foi o gatilho, mas após 2 dias eu fui demitida, com a desculpa de “Estar criando movimentos”. E qual seria o movimento? Ter direitos? Reclamar pelo justo? Receber pelo trabalho feito? Não sei dizer, isso não foi esclarecido.

Claro, Bernardo instantes depois também se demitiu, e conosco outras 3 pessoas deixaram o estabelecimento. Ao que tudo indica, eu não estava errada, e o meu “movimento”, mesmo que involuntário, surtiu algum efeito.

Nunca existirá verdade absoluta sobre tudo, mas a verdade é nunca devemos ir contra os nossos princípios.

Por enquanto, ainda estamos por aqui, não voltamos a estaca 0, estamos mais dispostos do que nunca, afinal, quem tem um sonho, tem tudo.

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