Casal Cultural Temporada de Verão - Diário de Bordo 6

By Fevereiro 04, 2019

Mais um diário de bordo, mais uma semana repleta de surpresas boas e experiências únicas. Tornando essa “viagem” uma descoberta. Acompanhe agora mais uma semana no “paraíso”.

Quando digo paraíso muitos de vocês devem imaginar que estamos vivendo de sombra e água fresca, com dias de sol e muita diversão. Confesso que uma parte disso pode ser verdade, a outra exige de nós:muita paciência, determinação e jogo de cintura.

E o motivo? Gira em torno da nossa convivência, da incerteza do motivo pelo qual viemos para Arraial, da, muitas vezes, falta de perspectiva. Afinal, estamos “sozinhos”, porém, além de sermos namorados, somos melhores amigos e só podemos contar um com o outro por aqui. O que faz com que estreitemos ainda mais o relacionamento. Mas muitas vezes não é o suficiente, e a falta de um “conta comigo” de terceiros é complicado quando bate a desmotivação.

Um pouco mais de férias

Viver longe da família e dos amigos não é lá muito fácil. 

É claro que conhecemos muita gente, traçamos amizades, porém, vocês sabem como mineiro é desconfiado, sempre andando com um pé atrás.

Felizmente, a semana de férias do irmão do Bê ainda não havia terminado, e os nativos que vós falam estavam determinados a levar os dois turistas para conhecer a famosa Praia do Espelho.

Cedinho, alugamos um carro e partimos para as maravilhas da Bahia. E eu vou te contar, a tal praia é uma das belezas naturais mais exuberantes que já pude presenciar.

Cristalina, tranquila, rodeada pela flora baiana. A água de tão translucida se torna um espelho em contato com a luz do sol. Bê e eu já tivemos o prazer de conhece-la há quase dois anos. E de lá pra cá, pouca coisa mudou.

Trancoso é logo ali

Não somos muito de ficar parados na canga, esperando o dia passar, nossa alma de aventureiros desperta e caminhamos sempre por todos os lados para conhecer coisas novas. No espelho não poderia ser diferente. Águas mais calmas, corais gigantes, areia quase preta. Partes desertas que parecem não terem sido descobertas pelos turistas mais “preguiçosos”.

Torrados de sol, decidimos também passear por Trancoso, já que era parte do caminho. O famoso Quadrado ainda era desconhecido para nós dois.

Sorte nossa ter feito essa escolha, o lugar é realmente incrível. O charme de todos os bares e restaurantes aos arredores da famosa igrejinha dão um toque que vai do rústico ao requintado. Por mim, de certa só sairíamos de lá ao amanhecer do dia seguinte. Coisa que ainda faremos.

Vida Real

De volta a Arraial, após um pequeno desvio de caminho, motivado por um lapso de perda. Percebemos que era hora de novamente pôr os currículos debaixo do braço e sair distribuindo por cada bar e restaurante do centrinho da cidade. São muitos, mas com a “baixa” da alta temporada, concluímos que talvez não seja uma coisa tão fácil assim de conseguir.

Arraial, pra quem não conhece, ainda é um lugar meio encoberto pela alma de vilarejo, aquela coisa que faz todo o movimento acontecer em apenas duas ruas. Não que isso nos incomode, pelo contrário. Mas para o comércio, por assim dizer, essas duas ruas acabam se saturando.

Nada é tão fácil quanto pensávamos que era.

Finalmente a sexta feira chegou, e aqui como em qualquer outro lugar a sexta é motivo de tomar umas, ou várias, dependendo de quem estamos falando. No nosso caso, estamos entre umas e várias, ainda no meio termo.

Forró, samba, aquela via-sacra feita por qualquer uma que não se contenta em terminar a noite em um bar só. A semana não poderia terminar melhor, e a expectativa de um sábado cheio de descobertas e energias.

Daqui em diante sou eu (Bê)

Então, sorrateiramente chega o sábado. O dia que promete ser um divisor de águas. Um dia de muita preparação, respeito e tradição. Afinal é dia 2 de fevereiro. Talvez essa data para o “povo da terra” não faça lembrar muita coisa.

Mas, por aqui, uma cidade litorânea e baiana, a coisa é bem diferente. Não é, nem de longe, um dia comum. A cor branca é vista com maior facilidade que no ano novo. É dia de Iemanjá, e por consequência, dia de alegria e fé.

Ao chegarmos, após o almoço, na praça onde era feita a concentração da procissão, não vimos nada senão um enorme número de pessoas, que, voltavam à atenção para o centro de um círculo formado, espontaneamente, pelas próprias pessoas.

Fé, diversidade e beleza

Turistas de vários lugares, nativos, religiosos, adeptos de várias crenças, tinham em comum a admiração pela imagem de Iemanjá. Roupas características marcavam o ritual, liderado pelas mães e pais de santo.

Um pai de santo mostrava-se líder da festa, e fazia, de tempos em tempos, discursos sobre a importância da comemoração, e encorajava outros líderes à participarem das orações e “mostrar a cara”. Um grupo de capoeira só acrescentava beleza ao encontro.

Tudo ocorria com muita dança e canto, de forma e esbanjar uma rica tradição. O mais bonito de se ver naquele momento era a diversidadepresente no rito. Mulheres, homens, idosos, jovens, homossexuais, trans, todos com uma mesma função, hierarquia e importância durante a adoração.

Na barca, que levava a imagem da santa, várias oferendas eram colocadas. Em sua maioria, rosas, além de outras flores e plantas. Pipocas também eram arremessadas nas pessoas pelo líder religioso, como uma forma de purificação.

Tudo isso aconteceu em cerca de duas horas. Aplausos, mais calorosos que durante a concentração, surgiram quando quatro homens, designados a carregar a barca, foram solicitados a prosseguir o caminho para além da praça.

A procissão seguia rumo da seguinte maneira: na frente um carro de somque abria caminho, atrás a imagem carregada pelos quatro homens com suas oferendas, seguido pelos líderes religiosos. Ao fundo, pelos lados e de todos os cantos, as pessoas que estavam desde o começo, os adeptos, os curiosos, os turistas e quem mais quisesse se juntar à bela imagem que cruzava o centro da cidade, quase todos com flores às mãos.

Braços abertos

A procissão foi de encontro a igrejinha matriz de arraial d’ajuda, como sua primeira parada.

A igreja, já à espera e de portas abertas, clamava pela imagem, e com a bênção de um padre católico prosseguiu jornada com a intercessão de Nossa Senhora D’Ajuda. Em tempos de extremismo e intolerância foi maravilhoso ver tantas crenças com as mãos dadas.

O próximo passo foi começar a seguir caminho para o mar, onde é o lar e o destino final de Iemanjá. E foi no mesmo clima em que se começou, paz e acolhimento.

Ao chegar ao mar, mais algumas dezenas de minutos separaram a Santa, das ondas, talvez uma vontade de permanecer um pouco mais com imagem serena.

E a barca, azul e branca, preenchida flores, velas, pedidos, agradecimentos e uma mandala em seu centro, foi carregada até um barco, nas proximidades do mar da Praia dos Pescadores.

Outras tantas pessoas batiam palmas, festejavam, jogavam mais rosas ao mar, e até outras imagens da Deusa.

Outros mais, como eu, entravam ao mar, faziam preces e até seguiam o iluminado barco até onde podiam.

 

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