A Gente Tava lá! : Roger Waters em BH!

By Outubro 23, 2018

No fim de semana, fomos a um dos shows mais esperados do ano em terras mineiras. Trata-se da primeira vez de Roger Waters em Belo Horizonte.

Além de tudo, o veterano do Pink Floyd já soma 75 primaveras. Ou seja, jamais poderíamos ter perdido essa oportunidade. Roger Waters, em período tão conturbado do Brasil, com palco cheio de efeitos visuais, e no quintal de casa? Tínhamos de dar um jeito de fazer parte disso.

A espera da angustia

Desde o final do ano passado, o show estava sendo anunciado. Não ficamos muito apreensivos, porém. Tínhamos muitos outros shows, eventos e atrações anteriores. Contudo, a data vinha se aproximando e ficamos cada vez mais excitados com a oportunidade de irmos ao grandioso espetáculo.

Preenchemos o documento necessário para o credenciamento de imprensa. E aguardamos a resposta final da produtora. Após algumas semanas – que se passaram arrastadas –, veio a resposta: sabe-se lá por qual motivo, dessa vez, não conseguimos o credenciamento do Casal Cultural. Ficamos muito chateados, pois contávamos com isso. (E recebemos a resposta dois dias antes do evento.)

Tudo bem, essas coisas acontecem! Contudo, ainda somos dois assalariados, e não contamos com fruto monetário provindo de nosso esforço com o site. Ou seja: somos pobres! (Mas maravilhosos e felizes! Rsrsrs!)

No desespero, fizemos o seguinte: conseguimos uma van, antes mesmo de ter os ingressos em mãos. Uma das partes já estava ajeitada. Teríamos transporte para ir e voltar! Menos mal.

Fizemos generoso empréstimo amigo, para tentar comprar os ingressos assim que chegássemos ao Gigante da Pampulha. Felizmente, assim que descemos da van, ainda existia um único tipo de ingresso para o show: “arquibancada inferior”.

Um tempinho depois de termos conseguido as entradas, esgotaram-se todos os tipos de ingressos. Ufa!

A partir dali, era só aproveitar!

Entramos com cerca de 40 minutos de antecedência para o começo. Nos ajeitamos, eu e Déborah, meu irmão e um amigo. Tudo certo, em clima de festa...

Nessa parte da arquibancada, existiam pessoas em pé e sentadas. Uma das “sentadas” – apenas uma! – entrou em conflito com Déborah, e pediu para que se retirasse dali.

Ela, de forma correta, se recusou. O homem, então, um coroa com cerca de uns 50 anos, xingou-a de nomes que me recuso lhes apresentar aqui. Após tal indelicadeza, proferiu elogios a seu candidato, um certo fascistinha, que ganha forças neste caótico cenário brasileiro.

É... Os nervos estavam à flor da pele. Muitos fãs – e pessoas para quem “os gringos não podem opinar sobre a política brasileira” – estavam bastante tensos.

Talvez fosse medo de que Waters, assim como nos shows anteriores no Brasil, fizesse manifestação contra o neofascismo mundial, e pudesse incluir o Brasil, novamente, no ato.

Primeiro ato

Pois bem! De volta a nossa aventura, procuramos outro local para nos sentarmos. Ou melhor, para assistirmos de pé. Não há outra maneira de contemplar um show com tamanha grandeza.

Começa o espetáculo e o poder de união da música deixa todos, por ali, extasiados. Tudo se inicia de forma magistral! Se fechássemos os olhos, era como se puséssemos a agulha da vitrola do primeiro lado do disco The Dark Side Of The Moon.

Porém, quando abríamos os olhos, a realidade era ainda mais surpreendente. O palco? Algo maravilhoso! O maior telão que já vimos na vida contracenava com as performáticas músicas.

A quantidade e a excelência dos músicos no palco traduziam a grandeza do evento. Eram muitos, e todos como divindades a nossos olhos – inclusive as duas cantoras, responsáveis pelos corais, e os vocais de The Great Gig In The Sky. Quando não cantavam, faziam a encenação imprescindível ao show.

Roger Waters trouxe, até mesmo, um “David Gilmour em miniatura” (e mais novo) como parte do show. Sua guitarra e sua voz também remetia, bastante ao outro grande ídolo do Pink Floyd.

O espetáculo segue, monstruoso, com efeitos, pirotecnia. Coisas de outro mundo! Como é incrível ver um ex-Pink Floyd, com fôlego invejável, a caminhar, de ponta a ponta, no gigantesco tablado, para que todos possam vê-lo melhor.

A primeira parte do show exalta o álbum The Dark Side of The Moon, apesar de as músicas não seguirem a sequência exata do histórico álbum. De todo modo, quase todas as canções são executadas, ao longo de toda a apresentação.

Segundo round

Como numa peça de teatro, o primeiro ato havia chegado ao fim. Mas, para os espectadores, nada de intervalos. Os efeitos visuais aumentam, e a atenção ao telão torna-se necessária.

A grande mensagem difundida, e defendida por Waters, começa a tomar forma: “Resist” [Resista].

São mais de 20 minutos de protestos explícitos no telão, relacionados ao meio ambiente ou ao neofascismo. Afinal, uma coisa sempre leva à outra. A partir de tal momento, a fábrica mostrada na capa de Animals é montada à nossa frente, em cima do palco. E os protestos continuam!

Roger passa a dar “nomes aos bois”. Após textos e imagens escandalizadoras, aparece a palavra “Resista”. Mark Zuckerberg é um dos nomes aos quais resistir.

Como nos shows anteriores no Brasil, o telão mostra o nome de políticos neofascistas ao redor do mundo, como Donald Trump. E, na hora de revelar um nome brasileiro, a seguinte mensagem aparece, em português: “Opinião política censurada”.

A censura dá ainda mais visibilidade ao perigo que nos cerca. (Algo, aliás, já é certo. E já começou: há quem já “peça” para que calemos a boca.)

Em tal momento, ouvem-se muitos gritos de “Ele, não!”, a tremer o estádio, quase em uníssono. Salvem poucos gritos de “Ele, sim”, assim como poucas vaias. Parece que, em Belo Horizonte, o público estava mais preparado.

E quanto ocorre o fato de maior tristeza do show. Dois caras atrás de nós começam a se manifestar contra os atos de Roger Waters, mas de maneira escrota!

Eis a frase que mais nos marcou, e também ao pessoal nos arredores: “Devia ter colocado uma imagem de Marielle Franco, para que eu pudesse descarregar oito balas na cara dela”.

Também ouvimos coisas como “esse gringo babaca não sabe de nada, quer ganhar algum reconhecimento a mais”. Depois de algum tempo, esses mesmos dois sujeitos – brancos, com camisa de futebol oficial da última coleção e roupas de marca – começam a gritar: “Queremos música, queremos música!”

Pois não é que os dois sujeitos nos pedem o isqueiro para acender um “baseado”?

Terceiro sonho

Assim que termina o silencioso protesto do telão, as queixas começam junto às canções. Como na capa de Animals, um porco gigante voa sobre o cenário.

Ao fundo, o telão berra “TRUMP É UM PORCO”.

Ao mesmo tempo, o porco sobrevoa todo o estádio com a grande mensagem em suas laterais: “Stay Human” [Seja Humano].

É quando Waters toca algumas de suas músicas solo, de seu último álbum, Is This The Life You Really Want?. Há, também, mensagens de músicas ainda tiradas de Animals, como “Charade You Are”.

Precisamente no momento que voltam a tocar as músicas, os caras atrás de nós regurgitam novas asneiras, pouco se importando com as aclamadas canções .

Waters conversa pouco com a plateia, mas é bastante carismático. Fala quando necessário, e brada suas opiniões. Conversa, também, ao apresentar toda a banda. Além disso, nas frases de “Us and Them”, grita partes necessárias.

Enquanto isso, permanece a mensagem: “Resista”, “Resista”, “Resista”!

Ah! Há algo também muito importante: crianças sobem ao palco, para fazer a famosa coreografia de “Another Brick in The Wall”. As partes 2 e 3 são totalmente intepretadas.

Pigs” entra no setlist. E o prisma de The Dark Side Of The Moon é feito com luzes que imitam o triângulo e o arco-íris, que podem ser vistos de todo o estádio.

O show se encerrado, divinamente, com “Confortably Numb”.

Sobre o espetáculo musical em si, muita coisa há por dizer. Porém, conseguimos resumir nosso pensamento, de maneira mais fácil e prática: “Foi o  melhor show de nossas vidas!” E isso inclui a parte política, musical e artistíca.

E, já que ainda não podem nos censuram, aproveitemos para deixar, aqui, nosso protesto: #EleNão; #EleNunca.

“Resista”, “Resista”, “Resista”!

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