Papo Cultural: Ana Frango Elétrico Destaque

By Março 25, 2020
Papo cultural com Ana Frango Elétrico, no Teatro Pocket , Sesi Minas Papo cultural com Ana Frango Elétrico, no Teatro Pocket , Sesi Minas

Que a juventude sempre surpreende isso já não é mais novidade. Né?! E se tem uma geração plural no quesito música, essa definitivamente é a geração Z, Y ou seja lá qual denominação nos foi dada, (Ah, colé! Casal Cultural é juventude pura). A parte excelente disso, sem dúvida, são as novas vertentes  que a música como um todo vem se distinguindo.

Ana Frango Elétrico, com toda a certeza faz parte dessa nova vertente. Carioca, botafoguense, contradiz por inteiro o termo “nova MPB(WTFIT?). Em sua segunda passagem por BH, de um jeito bem mais intimista, e com o público tendo pequenos e tímidos delírios ao entoar baixinho todas suas canções, Ana bateu um papo cultural com esse casal que vos fala. Ficou bem massa, e vale a pena conferir.

Nunca ouviu falar dela? Então... “Mistura, magenta com azul e vai”.

 

CC: Ana, primeiramente, eu queria dizer que nós estávamos presentes em seu primeiro show em BH, no ano passado, no espaço Do Ar. Foi um maravilhoso, nós fomos para curtir, a gente acabou te conhecendo lá. Compramos o Little Eletric Chicken Heart (segundo álbum da cantora).

AFE: Sim, eu lembro de ter encontrado com vocês lá. 

CC: Lembra, mesmo?

AFE: Sim. Eu lembro de geral, pô?! (risos)

CC: Que bom saber disso. Tô honrado, me sentindo agora (risos). Então, voltando a entrevista, minha primeira pergunta é justamente sobre os dois shows. O primeiro foi um show com banda, em um ambiente bastante diferente, com banda grande, contava com instrumentos de sopro. E esse de agora foi uma coisa bem intimista...

AFE: O oposto do outro, né?!

CC: Justamente. Então, qual a grande diferença deles, no sentido de como uma canção, quero dizer, a “mensagem” da letra se sobressai nos dois shows, qual a diferença da comunicação com o público?

AFE: Eu acho que a diferença dos dois shows é isso: parece que em um eu estou mostrando a matéria das coisas, a matéria prima, à canção primeiro. O outro, ele é o raciocínio de uma produção, né?! De um conceito do disco, dos sopros... A diferença é essa intimidade, o canto. Eu tenho que dar conta de outras coisas, do a mais que está presente nos discos. Eu tenho que dar conta desses instrumentais, não ao "pé da letra", porque, assim,  é impossível, né?! Dar conta com a minha boca de fazer, por exemplo, os instrumentos de sopro.

Por exemplo, em “Chocolate”, fiz uma introdução. Eu vou adaptando, né?!  Aí coloquei os poemas no meio. É isso, acho que é essa intimidade, colocar o canto em primeiro lugar.

Às vezes, dependendo do lugar, eu me escuto pouco cantando, então, é legal ter essa disponibilidade de estar ouvindo minha voz, sabe?! É sobre isso, ser sobre minha voz, sobre o meu canto.

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CC: E as canções como elas foram tocadas aqui hoje, foi como elas foram compostas originalmente?

AFE: Exatamente. Sim, tudo do jeito que foram feitas.

CC: E Você falou no show que vai ter mais apresentação em Belo Horizonte esse ano.

AFE: Vai sim, em maio, acho se tudo der certo.

CC: E o show vai ser com banda?

AFE: Sim.

CC: E você se sente mais a vontade com a banda ou sozinha ?

AFE: Eu já me senti mais a vontade sozinha. Agora não estou mais tão acostumada, mas é bom pra mim também. É um exercicício, sabe. Eu gosto, eu dou conta. Por exemplo, um dia muito importante da minha carreira foi quando abri o show para O Terno, eu fiz sozinha no Circo Voador lotado. Eu achava que não ia dar conta, e eu dei. É legal também esse desafio que a gente se coloca.

Tipo, pô, nesse esquema aqui é o melhor jeito para estar tocando assim, semi-arena, tudo lindo. Quem me dera se todo show sozinha fosse assim, amanhã a gente toca em Juiz de Fora, e já não sei se vai ser parecido, será a meia noite, antes já vai ter uma banda.

CC: Outro ambiente, né?!  Outro tipo de show.

AFE: É, acho que já vai ser mais perrengue.

CC: Verdade, aqui acho que intimidade era tanta, que até o público estava meio constrangido no início, meio travado, né ?!

AFE: É, ficou meio tímido.

CC: Sim, você até deu uma descontraída, dizendo que podia cantar as músicas quem soubesse. Ficou aquela dúvida, "será que é pra cantar ou não"?

AFE: Claro, porque fica achando que não pode quase.

CC: Vamos falar agora sobre seu segundo disco, que é maravilhoso, inclusive, pra mim o melhor disco do ano passado.

AFE: Ah, que isso?!

CC: Eu achei, de verdade...então, ele vai ser transformado em vinil né?

AFE: Vai.

CC: Um LP vermelho. E o que você acha disso?

AFE: Do vermelho?

CC: Não, do LP (risos)

AFE: Ah (risos), eu fico muito feliz, porque é um disco que desde o começo eu pensei como no formato de vinil.

CC: Eu ia fazer essa pergunta, se o conceito dele é de um LP?

AFE: Completamente, o conceito dele é todo em LP. De som mesmo. O som dele tem muito a ver com vinil, a organização também.

CC: Não é um formato de se escutar música da nossa geração. Mas é um formato que você escuta com frequência?

AFE: Eu não tenho um toca discos funcionando. Eu já escutei uma época. Mas escuto muita coisa que foi gravada nessa época, originalmente no vinil, que foi prensada como tal.

CC: Mas agora com o seu sendo lançado, vai ter que arrumar uma vitrola, né? (risos)

AFE: Ah, vou ter que, né?! Eu tenho uma (vitrola) que vou ter que botar pra funcionar.

CC: E agora com seus dois álbuns lançados, você pensa que chegou ao direcionamento que quer ter como Ana Frango Elétrico? Ou ainda quer trazer uma sonoridade muito diferente do que temos como lançado?

AFE: Então, depois do LECH (Little Eletric Chicken Heart) eu já fiquei achando que queria romper com esse som bruscamente. Agora eu já penso diferente, eu acho que o LECH é uma linha que eu gostaria de fazer um pouquinho mais, por tudo que eu aprendi com ele, do que fiz com ele... Desenvolver um pouco mais essa linguagem. Porém,  já trazendo outras coisas em cima disso, assim como eu acho que o LECH é um desenvolvimento do Mormaço Queima (primeiro disco)  tipo, na dobra de voz, uso do metalofone, várias coisas que aparecem já no primeiro.

Então, as coisas vão desenvolvendo. Mas eu não me vejo assim: A Satisfeita. Me vejo fazendo mais e mais, querendo explorar, fazer um disco de um jeito, outro de outro. Não me vejo chegando em um lugar exato, um destino final.

Eu fiquei muito feliz que o LECH... o Mormaço me deixou com uma ideia de produção bem específica. Então, sinto feliz que o LECH legitima em alguma maneira as minhas canções. É um disco que é pensado como canção, ele tem outros dispositivos.

Foi muito bom de eu ter lançado, pois eu já estava angustiada, sentia que queria lançar um material que fosse do jeito que foi. Fiquei feliz de ter conseguido fazer isso, sabe? Me deu uma acalmada, tirou um peso das costas. Posso pensar o que eu vou fazer com mais tranquilidade daqui para frente, justamente porque já fiz ele, sabe?!

ANA FRANGO 3

CC: Você define seu som como uma bossa pop-rock decadente com pinceladas punk?

AFE: Principalmente o Mormaço Queima, ele é isso. O LECH para mim já não é essa definição. É um rock-balada jazz.

CC: E você não gosta do termo Nova MPB (risos)? Eu acho isso maravilhoso porque eu nunca entendi o termo MPB. Fora o Nova eu já não entendia.

AFE: MPB já não faz sentido, o Nova então muito menos.

CC: Eu acho legal você se emancipar desse rótulo toda vez que pode você sai fora dele .

AFE: É que eu acho que a gente está em um conceito pós tecnológico que não faz mais sentido ficar tentando achar movimentos, é outra coisa. Eu vejo os artistas incomodados com as “caixinhas” que a imprensa tenta colocar. Como acho que sempre vão tentar nos colocar encaixar em definições, é legal a gente, de repente,  já chegar com um termo que você se sinta bem com ele.

CC: Que bom, continue mesmo saindo fora de certas definições. Contudo, o que você acha que mais irrita ou incomoda nesse conceito de Nova MPB para o artista?

AFE: Pra mim não faz muito sentido porque eu acho que é um termo de uma canção que é fálica em alguma medida, do sentido de quem são os compositores. Não digo isso querendo tirar a referência de mim. Eu já ouvi muito a tropicália, mas eu me coloco mais como pós tropicália, pós mpb, e não do tipo “Ah, não tenho nada disso”. É do tipo, justamente aceitando essas influências, mas não é exatamente isso. Eu não sou. Não adianta, as minhas referências nem são mais nacionais, sabe. Elas são mundiais, tem a ver com a tecnologia. Acho que não cabe mais tanto ficar nesses esquemas, entende?!

CC: Eu queria então, saber do seu gosto musical. A gente já ouviu muito falar em Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Yoko Ono, Chico César, você já citou Mama África em entrevista. Mas o que você escuta hoje em dia, nacional ou internacional, de música recente, seja de mainstream ou independente?

AFE: Eita, eu escuto muito Erykah Badu. Eu estudo umas coisas mais antigas. Descobri um cara, Ronald Langestraat,  que eu achei foda. Ele era um pianista de latim jazz, tenho ouvido muito. Lançou um álbum nos anos 1970 que agora que tá voltando, ninguém ouviu muito na época.... falando assim eu não lembro muito bem. Mas eu “troco” com muita galera o que eu gosto. As pessoas com quem eu circulo, pessoas queridas e com quem eu aprendo muito.

Acho que tem muita coisa boa rolando. Escuto volta e meia, mas eu ouço coisas antigas um pouco mais. Tô viciada num álbum da Mart' nália.

CC: Vejo você postando muito dele no Instagram.

AFE: Sim, gosto muito de Gorillaz também.

CC: E de Belo Horizonte, tem alguém que você tem escutado?

AFE: Luiza Brina, eu amo ela, Juliana Perdigão.

CC: E do movimento de rap que tem crescido em BH, alguma coisa anda na sua playlist?

AFE: Ah, Hot e Oreia. É tem uma galera que eu gosto muito, Joca, Zudzilla, Ava Rocha, Negro Leo, Saskia.

CC: Muita coisa misturada. Legal. Voltando as perguntas referentes ao seu som, com dois álbuns lançados,e ainda na divulgação do segundo, você já pensa em um terceiro? Já tem um conceito dele pronto?

AFE: Com certeza. Já tenho até título.

CC: Você pode falar com a gente? (risos)

AFE: Não, não posso falar, né?! (risos)

CC: Recentemente você teve um review do Fantano, do The Needle Drop e como foi isso, foi uma surpresa? Já sabia que ia acontecer?

AFE: Não sabia nem quem era ele, gente (risos). Eu tava no instagram, tava gravando,  dentro do estúdio, tava do lado de uma amiga. Aí começaram a me mandar um negócio que ele me marcou . Aí mostrei pra ela e falei: amiga olha isso aqui. Ela “ah deve um jurado.” Qualquer outra pessoa do estúdio que eu mostrasse já teria surtado,sabe. Nesse momento a gente tava no começo da tarde. E eu não sabia quem ele era. Deu oito da noite, a gente foi fazer um churrasquinho pra comemorar por que era o último dia em estúdio.

Aí comecei a receber várias mensagens e perguntei pra galera: “ Gente, cês sabem quem é esse cara?” Aí dois amigos ficarm tipo: "caralho!!!! ". Pegaram o computador ai, vimos. E foi muito importante para o meu trabalho. Na verdade nem sei  como chegou no cara.

CC: Além de compor você pinta e faz poesias, queria saber, referente a pintura, algumas são inspirações para música ou funciona mais ao contrário?

AFE: Eu acho que já teve um tempo que eu fazia mais essas parada juntas, sabe?! Eu já não tenho tido mais tanto tempo para pintar, infelizmente.  Agora tô sempre desenhando, minha namorada é ilustradora, então eu tenho estado sempre com desenho na cabeça e tenho sempre pensado nas cores.

As cores são bastante influentes. Algumas canções tipo, “Cinza e Verde Limão”, “Roxo” algumas mais e algumas menos. Acho que na minha arte está  em muitas coisas, tem essas diversas áreas que eu atuo.

CC: Então é isso, esperamos o próximo show em maio ansiosamente.

AFE: Oba!

CC: Espero que nele possamos também tomar uma cerveja juntos.

AFE: Vamos, vamos, hoje só não rola que amanha acordo cedo cedo.

Última modificação em Quarta, 25 Março 2020 23:03

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