Papo Cultural: Chico César Destaque

By Março 18, 2020
Chico César no festival sensacional Chico César no festival sensacional

Em sua última passagem por BH no festival Sensacional, após a apresentação ao lado da amiga Elba Ramalho, Chico César em sua fineza impecável nos concedeu um pouco do seu tempo para conversarmos. Ou melhor, para nós dar uma aula sobre o verdadeiro conceito de amor, em todos seus âmbitos

Acompanhe agora esse incrível bate papo.   

CC: Primeiramente, vamos falar de redes sociais. Eu vi que você postou recentemente em uma delas, uma foto da sua juventude em que você estava com um visual meio punk. Até foi essa a denominação na legenda. A minha pergunta é se você coloca ainda o espírito rebelde do punk nas suas composições atuais. Essas características da juventude são trazidas?

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Chico César: Eu divulguei uma música no dia de Iemanjá, na realidade compus naquele dia, dizendo que Iemanjá é negona e com um “black power” sai do mar. Alguém comentou, “nossa que música punk, ein” (risos).

Quando eu fui para a Alemanha, ainda na primeira vez, eu não tinha disco. Eu usava o cabelo raspado dos lados, como um moicano. Um jornalista do sul da Alemanha comentou que tinha um cara do Brasil com um visual que lembra o John Lydon do Sex Pistols, eu achei engraçado, porque muitos anos antes dessa viajem, Arrigo Barnabé foi fazer um show na Paraíba, e meu grupo na época, o “Javali de Carne” abriu o show. E ele ficou vendo nossa performance, bem de perto. Depois ele disse para os músicos e os jornais: “Esses caras são os punks da caatinga”!

CC: (risos) Foi uma boa denominação.

Chico César: É sim. Uma coisa tipo, Os Cangaceiros. Mas, voltando à pergunta, eu acho que a rebeldia, quando o artista traz isso de maneira genuína, da sua infância e adolescência, ela permanece. Eu tenho uma canção que diz: “fogo nos fascistas”, ou em outra do mesmo disco: “eu quero quebrar a porra toda, eu quero que o sistema se foda, vou tirar minha ira do papel”. Então, isso parece ser punk, né?!

CC: Acho que sim. São versos que se encaixariam facilmente em letras “punk” em sua forma mais pura.

Chico César: Punk, porque, assim... O rock, vamos dizer, é um estilo que poderia manter uma rebeldia, que carregou em seu início, perdeu um pouco na época do progressivo, porque os caras foram viajar nos timbres e outras coisas. Mas, aí veio o punk. Coisa de poucos acordes, com uma fala bastante direta. Após movimento, o rock se perdeu de novo, em uma coisa de “glamour”. Aquela coisa das pessoas acharem que fazem parte de uma corte, invés de continuar bebendo daquela fonte. Então nós temos hoje muita gente do rock bastante equivocada, principalmente no Brasil. Por exemplo, Lobão, tem o outro rapaz do “a gente somos inútil”.

CC: Roger Moreira, do Ultraje a Rigor.

Chico César: Isso, o Roger. Penso, “pô, esses caras eram tão rebeldes”.

CC: Socialmente falando, tão críticos, e hoje em dia... Bem conservadores.

Chico César: Mas, se a gente for olhar... Eles são homens, brancos, de uma classe média para cima, sabe?! São privilegiados. E já vi colegas meus reclamando de que nos governos do PT não havia mais primeira classe no avião, não tinha aquela cortininha, as pessoas tinham de comer com garfo de plástico. “Eu quero viajar separado, comer com garfo de ‘prata’”. Eu acho uma coisa meio equivocada. A vida tem a ver com outras coisas, né...

Chico César: ELBINHA, BRIGADO MEU AMOR.

(Entrevista interrompida pela ilustre presença de Elba Ramalho)

Após Elba Ramalho (!)

Composições e política 

CC: Somos apaixonados pela música “Reis do Agronegócio”, apesar do tamanho dela já aprendemos a cantar de cabo a rabo. Pensamos nela como um hino, de verdade, de tudo que a gente acredita. Inclusive ainda queremos muito ouvir ela ao vivo.

Chico César: Se eu tivesse tocado ela hoje, tinha acabado com minha participação no show da Elba todinha (risos)

CC: Justamente (risos) O que a gente quer saber na verdade, é como foi o processo de composição dela. É um desabafo muito grande e como foi para colocar tudo isso para fora?

Chico César: É o seguinte, essa letra é de Carlos Rennó, um letrista de São Paulo. Ele também é meu parceiro em outra canção bem longa que chama “Experiência”, já gravada há mais tempo. Parceiro também em uma canção romântica que se chama “Quando fecho os olhos”, várias músicas comigo na verdade.

A partir de um tempo ele começou a chamar pra si a responsabilidade de discutir esses temas de nossa contemporaneidade, e da agressão do homem à natureza. E quando eu já estava com o disco Estado de Poesia pronto, ele me mandou essa letra.

Então eu musiquei, e nós cantamos ela juntos num acampamento indígena em Brasília, em que todas as nações se encontram. Isso acontece um pouco antes do 19, 20, e 21 de abril. Cantamos ela uma noite no acampamento, apenas com “voz e violão”.

Após a apresentação, as lideranças indígenas chegaram para mim e disseram: “Amanhã nós vamos entrar no congresso e se nós não conseguirmos falar, mas você cantar essa música aí, vai dizer tudo que tudo que a gente quer. Então você não pode viajar antes que isso aconteça”.

Minha passagem era para o dia seguinte de manhã, tive de desmarcar. Nós fomos ao congresso, cantamos essa música. Era por volta das 11hrs. Às 13hrs a canção já estava espalhada pela internet no Brasil todo.

A cena de eu tocando no congresso, ali, onde os deputados falam, ficou na minha cabeça.

Eu voltei para São Paulo e pensei “poxa, eu vou ter essa música no meu disco”. Apesar do Estado de Poesia ser um disco de amor, faltava uma canção que explicitasse tanto esse amor pelo coletivo, essa preocupação com a vida.

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CC: Então a composição não faria parte do disco?

Chico César: Não. Por isso tive de colocar a música como faixa bônus.

CC: E qual a importância que ela traz consigo em sua opinião?

Chico César: Eu acho que é uma canção importante para questionarmos essa presença do agronegócio, da bancada BBB, a da bíblia, do boi e da bala. Ela prenuncia, infelizmente, o que acabou acontecendo no Brasil. Desses grupos assumirem o poder, essa coisa da narcomilícia, misturada com os evangélicos, que, acho que de evangélicos tem muito pouco.

CC: Os evangélicos são poucos em questão de uma liderança presunçosa? 

Chico César: Na verdade é a manipulação de alguns pastores sobre um “rebanho”. O rebanho, ele é evangélico, mas as lideranças, eu acho que não são. E os pastores acabam transformando a mente de muitos, levando para o caminho da maldade, de muita crueldade, seja com pessoas, com animais. Todos os seres diferentes deles, né?!

CC: Falando da questão dos discos. O seu mais recente é o Amor é um Ato revolucionário. Gostamos muito desse título e ele dá nome também a uma das canções. Um gerou o nome do outro ou foram coisas distintas?

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As várias faces do amor?

Chico César: Meio que foi uma coisa que veio junto, de certa forma. Eu queria que o disco tivesse esse nome. Há muito tempo me deram um avental que tá escrito: “cozinhar é um ato revolucionário”. E eu já vi escrito em vários muros: “O afeto é um ato revolucionário”, ou até mesmo “o amor é um ato revolucionário”.

Certa vez tive a oportunidade de montar com Bárbara Santos um espetáculo chamado, Camaradas, que remetia um pouco daquela relação artística de John Lennon com Yoko Onno, num “bag-in”. Começava dentro de uma bolça, ou dentro de um saco, e saíamos dele pelados. O espetáculo acontecia a partir daí. Nós colocávamos a roupa no decorrer da apresentação. Um pouco como é a vida: a gente nasce nu depois vai juntando umas cascas.

Nesse momento eu já quis ter uma canção que tivesse esse título para cantar no espetáculo. Acontece que muitas vezes acho que as pessoas confundem o amor com a posse. Eu queria falar de um amor libertário, um amor que abre as gaiolas que prende os pássaros. Então esse show “Camaradas” precisava de uma canção que dissesse isso.

Naquela época eu terminei de fazer essa canção e depois veio o processo de fazer um disco novo, então pensei: “esse vai ser o nome do meu disco”.

CC: Então tanto a composição e um conceito eram anteriores ao processo de gravação do novo disco?

Chico César: Sim. Inclusive, agora, um rapaz escreveu para a minha produção alegando que ele tem uma música que fala sobre isso. Eu pensei: “mas John Lennon tem já tem várias canções que falam sobre isso nos anos 1970, quando saiu dos Beatles e assumiu aquela coisa com Yoko Ono, toda aquela relação”.

CC: E de quando vem esse conceito de amor, não relacionado à posse?

Chico César: Acho que a partir do final dos anos 1960 para início de 1970, começou-se a pensar, a praticar, a buscar um amor como ato revolucionário. As próprias cartas de Che Guevara falam sobre isso. Cartas em que ele orienta, vamos dizer, o novo homem e a nova mulher para o amor como um ato de revolução, a própria relação ser revolução. Então não é algo recente, é uma busca que vem de muito tempo.

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CC: E a busca do amor como revolução continua? Pois essa relação de amor como posse, do patriarcado, o casamento como tradição parece ter dado errado há tempos.

Chico César: Obviamente a gente vive no meio dessa procura. Há muitos equívocos, termos mal definidos, como, essa coisa dos amores líquidos e etc. Mas na verdade estamos em um novo estágio. Acho que a gente não consegue mais voltar a caixinha daquela relação monogâmica submetida às vontades do homem, oprimindo os filhos, a mulher. Penso que cada vez mais esse modelo de família se prova falido. Eu acho que as pessoas estão experimentando. Quem experimenta erra bastante, não quer dizer que “eu estou procurando eu vou acertar”, não. Você vai buscando, e é uma experiência que pode ser dolorosa pois você está experimentando com o próprio corpo, com a própria alma, a própria existência. Porém o importante é você levar dentro do seu coração a intenção de fazer o melhor, de buscar, libertar-se, libertar os outros.

Isso também é importante em outras relações, do trabalho, nos coletivos, levar esse lance do amor: “fazer com amor”. Não fazer por obrigação, não como espécie de escravidão do tipo “Ah eu tenho que fazer isso ou aquilo”. Não. Faça algo com amor, que se goste, e que os frutos também sejam amor. Imagina comer uma comida feita sem amor, por exemplo, você vai adoecer com certeza (risos)

CC: É isso, cozinhar e amar são atos revolucionários.     

Última modificação em Quarta, 18 Março 2020 02:42

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