Conheça o Documentário Brasileiro, "Menino 23" Destaque

By Fevereiro 05, 2020

Saindo do caminho da premiação do Oscar, voltemos nossos olhos para o Brasil, para um cinema que não recebe o “glamour” que por vezes, seria merecedor.

 

E já que começamos por estas linhas, tratemos do documentário, um gênero, que você provavelmente nunca assistiu nas grandes salas de cinema do país, muito provavelmente também, não é a sua primeira escolha em um momento ocioso.

 

Não estamos aqui para fazer qualquer julgamento acerca das linhas escritas acima. Nós mesmos nos enquadramos em tais características. É apenas interessante pensar nos fatos para uma possível reflexão positiva.

2307

 

Prova de nossa ignorância é a seguinte: só vamos falar do filme a seguir, por conta de um post em grupo de facebook. Não fazíamos ideia de sua mera existência.

 

Mas, antes de começar, que alguns tópicos fiquem evidentes e claros:

 

- O Brasil foi o último país do ocidente a abolir a escravidão.

- O Brasil foi o segundo país com mais partidos nazistas fora da Alemanha.

- O racismo no Brasil é uma triste realidade.

 

Todo o enredo e as histórias relatadas no filme aconteceram por uma afirmação dentro da sala de aula. Um professor de história estava dando uma aula sobre o nazismo no ensino médio. Dentre as explicações, o educador desenhou uma suástica no quadro. Ele explicou que aquela insígnia foi adotada pelo partido nazista e se tornou uma marca.

 

Uma das alunas levantou a mão e contou ao professor que em sua casa existiam tijolos com aquele mesmo símbolo. A partir deste ponto, o historiador Sydney Aguiar Filho, ficou intrigado, e começou a pesquisar sobre aquela situação. Descobriu então, que a menina estava certa. Os tijolos faziam parte da construção de uma capela presente na fazenda da família, no interior de São Paulo.

2306

Acontece que a fazenda pertenceu à família Rocha Miranda. Uma linhagem que foi muito rica, eram grandes proprietários de terra, possuíam aviões, iates e comandavam várias empresas pelo Brasil.

 

A partir dos anos 1930, a família flertou bastante com o nazismo e eram membros do partido Integralista brasileiro. Foi nessa época que eles trouxeram do Rio de Janeiro, 50 crianças de um orfanato. Todas pretas.

2302

 

Elas foram levadas para a fazenda com promessas de estudos, lazer e educação. Porém, eram privadas de uma vida social e eram delegadas a todos, várias funções, em sua maioria trabalhos braçais.

 

O nome do filme é uma homenagem a Aloisio Silva, que na época atendia por “23”. Na fazenda não existiam nomes. Os 50 meninos trazidos do orfanato eram chamados por números e separados em grupos de acordo com o físico, para assim direcionar suas ocupações e funções no terreno.

2303

 

Em um português correto e livre de outras interpretações, as crianças foram escravizadas, trazidas de graça por meio de um orfanato. A população da cidade sabia das atividades, mas, nem ousava falar sobre o tema. A família era muito poderosa, e até hoje o sobrenome nomeia escolas e bairros tradicionais.

 

Mais ao fundo, a produção embarca por um Brasil que absorveu, aceitou e tomou como verdade a eugenia e pureza racial. Nos anos 1920, 1930 políticas de “branqueamento racial” marcaram o país, como explicita o documentário. Até mesmo concursos que premiavam as crianças “mais arianas” eram realizados por toda a nação.

 

Não estamos falando aqui de tempos remotos, longínquos, ou esquecidos. Estamos falando de um tempo que já existiam premiações do Oscar, grandes clubes do futebol brasileiro já eram fundados, Chaplin já era veterano. Estamos aqui, falando de ontem.

2304

 

Todas as sequelas desse tempo odioso estão presentes na nossa atualidade. Ainda é cedo para uma ferida desta dimensão estar completamente estancada, quem dirá curada. O flerte com políticas radicais baseadas em extremismo é assustador e real. É necessário de alguma maneira tentarmos buscar aprendizado em nossa memória recente. 

 

Mais recente que, toda essa questão, é o filme. A produção é de 2016. Infelizmente só tivemos o acesso quatro anos depois. Contudo, ele está disponível no Youtube, e pode ser assistido por qualquer um. Mais uma prova de que precisamos falar sobre o tema, precisamos difundir sempre mais. Necessitamos de procurar ao invés de esperar que uma obra como “Menino 23” caia sobre nossos rostos.

 

O resultado da pesquisa documental é grandioso. Outro contato é estabelecido pelo-longa metragem. Argemiro é outro sobrevivente encontrado, e reforça toda a crueldade praticada no período que foram escravizados.

2305

 

O filme é comovente e desmascara um Brasil desfigurado por políticas nazistas, costumes burgueses prejudiciais para seu progresso e o descaso com seu povo e suas raízes.

 

A direção é de Belissario Franca. A pesquisa é de Sydney Aguiar Filho, o filme pode ser encontrado em sua íntegra no Youtube.

Última modificação em Quarta, 05 Fevereiro 2020 17:08

Instagram Casal Cultural