Nosso Acervo: Metrô Linha 743

By Outubro 16, 2018

O Nosso Acervo de hoje traz uma obra que está há pouco em nossa coleção. E não trata apenas de um clássico da música brasileira, mas, também de um grande relançamento de um álbum icônico.


Estamos falando de um dos discos mais curiosos da história de Raul Seixas. Estamos falando do “Metrô Linha 743”. O disco “preto e branco” do eterno Raulzito.

O contexto do disco começa com o sucesso de seu antecessor, o autointitulado, “Raul Seixas”, de 1983. Com o inesperado êxito de vendas, por estar em uma gravadora de menor porte, Raul acaba fechando contrato com a gigante, Som Livre, para uma nova obra para o próximo ano. O que acabou se transformando na obra de que discutimos hoje.

O artista baiano estava querendo lançar o que seria seu primeiro disco conceitual. E quis realizar uma obra mais “nua e crua”, desplugada. Um disco que lembrasse o cinema preto e branco.Com o mínimo possível de instrumentos elétricos. E essa ideia o cantor tirou depois de uma viagem para os Estados Unidos, junto com sua companheira, Kika Seixas. Inclusive voltou com um saxofonista gringo, Clive Stevens, para as gravações do disco.


Apesar da boa ideia conceitual as gravações sofreram alguns problemas. Com o jeitão incorrigível de Raul, muitas sessões de gravações foram perdidas pela sua falta em alguns dias. O que fez com que o disco fosse adiado algumas vezes.


Fora que, o gringo trazido por Raul, não conseguia expressar suas ideias nas músicas, e custou uma fortuna para a gravadora. Ele acabou marcando
presença em apenas uma canção de dez gravadas para o álbum. Isso com um curto solo de saxofone, que no encarte original é descrito por Raul como “o solo mais caro do Brasil”.


Mas, muitas outras conturbações seguiram para a gravação e produção do
disco. Porém, vocês podem perder a curiosidade no livreto que
acompanha a reedição do vinil, que possui um trabalho de pesquisa impecável.
 

Ela foi lançada pelo selo fonográfico 180 Record Collector Brasil e ainda está à venda em edição limitada. Além disso, o disco traz muitos marcos como, ser o último disco de Raul ao lado do guitarrista Rick Ferreira, e conter a única faixa composta em parceria pelos dois, “Mas I Love You”.


Mãos à Obra
O álbum começa com a faixa título. E é a faixa em que Raul mais conseguiu
exprimir o que queria trazer com seu conceito. Uma canção de letra grande,
voltando as suas críticas contra sistemas políticos, e uma pegada meio “Bob Dylan”, com frases maiores que a melodia, e alguns sutis efeitos sonoros.


A faixa que segue a inicial é “Messias Indeciso”. Uma canção mística e
filosófica, em parceria com Kika Seixas. Lembra uma das parcerias com Paulo Coelho. Uma das minhas canções preferidas do cantor. Com certeza minha predileta da obra.


Meu Piano” é marcada pela presença de Clive Stevens no “solinho” de
saxofone. É uma boa música e além de Kika, traz a parceria de Cláudio
Roberto.


A canção seguinte, “Quero ser o Homem que Sou” parece um pouco com a
musicalidade do disco anterior. E Raul parece mais “sóbrio” na faixa.
Canção do Vento” é cantada com uma autoridade maravilhosa de se ouvir.
Mamãe eu não queria” é uma das duas músicas assinadas somente por Raul Seixas. E a interpretação é a melhor de todas as canções dele. Raul atua como um filho dizendo para mãe que não quer ir para o exército. E não tinha maneira melhor que pudesse acontecer.


A parceria registrada de Rick e Raul é excelente. “Mas I Love You” é uma
composição de um Raul apaixonado e cheio de remorso, bastante sincera.
As outras duas canções que se seguem são regravações de outros discos. “O Trem das Sete” que tem de novidade um coro masculino idealizado por Rick Ferreira que ficou lindo.


E, “Eu sou Egoísta” proporciona uma versão acústica da elétrica canção
presente no álbum, Novo Aeon. Na canção que fecha o disco Raul volta as raízes da Sociedade Alternativa, passando uma mensagem às próximas gerações, a qual denomina “Geração da Luz”.

Apesar de toda a beleza do disco, as vendas não foram tão boas. Talvez pela conturbada produção. Raul alegava que foi pelo fato da sua antiga gravadora ter lançado um disco ao vivo do cantor no mesmo ano, o que poderia ter dividido as vendas e feito uma publicidade negativa.


Dentro do disco está a parceria mais consistente entre Raul e Kika Seixas.
Além de ser o único álbum conceitual do cantor. E muitas canções que marcam os fãs e marcaram uma geração.

A reedição está maravilhosa. Ela traz um livreto de 38 páginas, com
entrevistas, fotos, desenhos exclusivos, além do encarte original, um diálogo impresso escrito por Kika, capa dupla, além de uma canção bônus.
Anakilópolis” ou “Cowboy Fora da Lei 2” é um esboço de “Cowboy Fora da Lei” que foi encontrada nas gravações do disco.

E lançada de maneira póstuma, com um trabalho de “garimpagem”. Apesar de ser uma qualidade de demo é interessante conhecer essa primeira ideia de “Cowboy Fora da Lei”, que se tornou um clássico que perpetua por gerações.


O relançamento tomou o cuidado de manter as gravações como no disco
original. E está sendo um disco delicioso de se ouvir, e diariamente. Um belo trabalho da 180 Record Collector, vale a pena ter na sua coleção.

 

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